Nu

Não há mais ninguém

Os espaços da casa se encontram estranhamente vazios

ou é como se eles não mais existissem quando não há quem os ocupe

Há o ruído, entretanto

Pensamento, medo, sorriso, grito

ele permeia cada coisa

como sussurro de morte onde eu vejo dor

O ruído sugere uma corda 

junto à cadeira da sala de jantar vazia

(ou inexistente)

Não digam nada! Selem cada porta e janela!

Eu não quero mais ouví-lo…

No entanto, como livrar-me da minha cabeça 

ainda que ela esteja em chamas?

Pequenos Poemas de Saudade

I

De vez em quando

murmuro teu nome 

e sinto vergonha

de muito sentir

II

Teus olhos pousados

nos meus esquecidos

retrato mais doce 

da minha inconsequência

III

A tinta que escorre

pelos dedos que mancha

cada verso tua cor

a matiz que me falta

IV

Mais que a saudade

embaraço maior

é te ter talismã

e toda sorte supor

V

Rememorar remoer-se

à contragosto retinto

a saudade tem gosto

assemelha à tua boca

Neo-obscurantismo

Para confirmar o seu voto

ignore os fatos

ignore os mortos.

Ignore a história

repleta de sangue

e o fascismo inglório

que nele se banha

Ignore os alertas

e também os sintomas

e se vista das fardas

e levante a bandeira

A mentira é uma arma;

o revólver, a chave

o distinto, inimigo

demagogia, viés

democracia, declínio.

Fragmento da Carta de Dez Anos Atrás

Revirei minhas gavetas nesta manhã

à procura de um vaticínio antigo e bobo

Algo que me fizesse rememorar a beleza do mundo

Do tempo de ter ombros e não ter o porquê de suportar as coisas

De ter voz, mas não precisar bradar por liberdade.

Eu encontrei uns versos de amor

(nunca dito)

em uma carta nunca enviada

Outrora escritos num êxtase radioso

e que agora correm perigo de esmaecer nos vieses da história.

Mas são versos de amor!

Inacreditáveis de se ver neste Pindorama distópico

Que ressurgem na boca junto ao sorriso

e é como um beijo para aquele que, como eu,

traz nos braços um pessimismo constrangedor

de viver na pária pátria amada.

Essere Presenti

Neste instante, eu vivo

Embora consiga entrever o futuro

ainda pálido, surgir no horizonte.

Acontecimentos amontoam-se na memória

Fatos e mais fatos irrompem-se

e, rapidamente, tudo é passado.

Eu permaneço no agora,

(ou em sua necessária ilusão)

tênue e intenso

Preso até o último fio da vida.

Animália

Digno de bicho é meu desejo

Que não encontra semelhança

Entre o que ouvi lá pela infância

E a realidade que percebo

O coração – por um ensejo –

Tem na emoção a consonância

Mas é imperfeita na semântica

E repetida por traquejo

O sentimento está no ventre

É além de humano o que se sente

Sobrepujante é o animal

Nada tem o homem de elevado

A emoção é basal; de fato:

O meu afeto é visceral.

Retiro

Enquanto a solidão durar, eu quero escrever

Vou escrever do prazer circunstancial encontrado nas longas horas

de ócio e de vício. Do silêncio quase desesperador

de uma claustrofóbica distância coletiva.

Eu quero dizer algo para lá do fim da rua

Ainda mais longe: para lá da rua onde ela mora

Amá-la pela primeira vez

Vê-la pela primeira vez

Encontrá-la fortuitamente em um passeio casual no Turcomenistão

Numa asserção da minha poesia libertadora, vou escrever.

Talvez eu ainda possa rever meus amigos

fechados em suas casas e depressões

Quem sabe eu ainda possa gritar seus nomes e evocar seus fantasmas?

A morte anda na casa vizinha e isolada

e o medo percorre os sinais de televisão, o conteúdo da rede

e já faltam palavras pra dizer o pior do óbvio.

Já me faltam palavras de saudade.

Eu quero escrever; Eu preciso

do afeto que de modo algum imaginei

do olhar e da voz daquele que me é estranho

a recitar os versos que ainda hei de compor

e que também hão de compor-me.

Como uma contemplação desse céu autunal

como uma crendice, a por pavor e esperança no peito dos tolos

eu vou escrever essas palavras nunca lembradas

que não me consolam com certezas, mas com possibilidades

de encontrar a amplidão do mundo em cada tediosa hora.

Anotações

Lembre-se do amor, José

Antes de tudo, lembre-se dos encargos:

contas, boletos, transporte, aluguel

Não se esqueça do inesquecível abraço

Onde a euforia, afinal, repousa

entre as pausas de desejo e carnaval

Lembre-se eternamente daquele beijo

Da entrega, do riso, do corpo

Leve em consideração o passadiço

Tenha em mente que o amor é sublime

Tenha em mente que o mundo é vasto

Olhar da Janela

Um sem fim de sonhos são encerrados no vagão do trem

Romaria de rotina, molde comum

Buscam o ordenado que finda antes do mês

Mês que finda antes de qualquer júbilo

Não à toa:

Sonhos, que são árvores

Anseiam à serra

Louvam o concreto

Insultam o rio

Lamentam um constante farfalhar triste.

Meu sonho, porém, realiza-se nos prados

No verde sem fim de fotossíntese

A quem nem a chuva nem o sol decepcionam

Assim, eu já não observaria o mundo

Assim, eu já não seria triste.